Recorde de mortes de enfermeiros mostra descaso com direitos básicos dos trabalhadores

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No ano em que o mundo inteiro enfrenta uma grave crise de saúde pública, o Dia Internacional da Enfermagem e do Enfermeiro, lembrado hoje (12), deve, não só homenagear o trabalho arduamente realizado no atendimento aos pacientes com a Covid-19, mas também reforçar a importância da categoria profissional para a manutenção da vida. A valorização neste momento parte do reconhecimento merecido e da garantia de plenas condições de saúde e segurança para estes que estão na linha de frente na batalha contra o vírus.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) apresentou o número de 10 mil enfermeiros e técnicos de enfermagem afastados do trabalho com sintomas do coronavírus. O número de profissionais mortos chegou a 88, mais do que os Estados Unidos, país com mais infectados no momento e que perdeu 46 profissionais para a doença. Com esses números, o Brasil se torna o país com mais mortes de enfermeiros no mundo.

Em Pernambuco, ainda não se tem números oficiais a respeito desta categoria em específico, mas é possível estimar um quadro semelhante. Os últimos testes realizados em profissionais da área da saúde com suspeita de contaminação da Covid-19, mostraram que 67%, mais da metade, dos examinados estavam de fato infectados, 2.067 pessoas.

O grave cenário não é por acaso, desde o início do agravamento do processo epidêmico no Brasil, os profissionais de saúde, principalmente do setor público, têm sofrido com as condições precárias de trabalho. Falta de equipamentos de proteção (EPIs) adequados; falta de capacitação para o manejo seguro e protocolo de atendimento; quantidade insuficiente de testes, e; não liberação de profissionais de grupos de risco, são apenas alguns dos motivos que levaram a números tão altos de perda de enfermeiros no país.

A categoria também reivindica que a baixa remuneração, falta de profissionais e o excesso de jornada, já observada anteriormente ao coronavírus, contribuíram para o agravamento da situação. Diante dessas condições, os profissionais precisam ficar mais tempo nos plantões e consequentemente há o prolongamento do tempo de exposição, que sem o protocolo correto de uso e troca de EPIs, aumentam ainda mais a chance de contaminação.

Entidades profissionais que representam a categoria, como sindicatos e conselhos, têm reivindicado que, com o coronavírus, os trabalhadores estão expostos a maiores riscos biológicos, além daqueles que já existiam na execução das atividades. A exposição a agentes físicos, químicos ou biológicos no ambiente de trabalho é caracterizada como insalubridade e a CLT garante o recebimento de um adicional, que varia em níveis, calculado em cima do salário-base. O pedido dos profissionais é que, com o enfrentamento à doença, o adicional recebido passe a ser o de nível máximo (40%).

“É preciso assegurar os direitos desses trabalhadores, eles que estão na frente nessa luta, para garantir que fiquemos bem. Proporcionar equipamentos de proteção, por exemplo, e outras formas de garantir saúde, segurança no trabalho e qualidade de vida é o mínimo que o poder público deve fazer. São direitos básicos e inegociáveis. O adicional máximo é uma reivindicação justa para uma categoria que está constantemente exposta ao perigo da contaminação.”, disse Fábio Barros, presidente da Câmara dos Vereadores de Paulista/PE.

O isolamento social é a mais importante medida para achatar a curva de contaminação da doença, diminuir o número de pessoas infectadas ao mesmo tempo e impedir o colapso do sistema de saúde, o que consequentemente contribui para salvar as vidas dos profissionais. Muitas pessoas têm se mobilizado em manifestações públicas de apoio aos enfermeiros, mas o principal, o que a maioria da população, aqueles que podem, precisa fazer, é ficar em casa.