O que o fascismo na Europa da década de 30 tem a ver com o Brasil de hoje?

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Movimentos fascistas que explodiram na Europa na década de 30 continuam presentes no imaginário do mundo todo, não diferente, no Brasil também. Infelizmente, não estão presentes apenas na memória do horror que foi essa época para a história do mundo, mas, em novas aparições do fascismo em governos do nosso tempo, nos dias atuais.

Foi sobre esse assunto a transmissão ao vivo realizada no último dia 3 pelo pré-candidato a prefeito de Paulista/PE Fábio Barros. Toda quarta-feira, Fábio discute temas de interesse da sociedade, geralmente com a participação de convidados, no seu perfil do Instagram. Dessa vez, o professor e mestre em História Jairo Fernandes participou do debate.

Ao longo da conversa, os dois trouxeram elementos históricos para explicar o que pode ser considerado um regime fascista. Jairo conta que a origem do fascismo remonta aos movimentos que surgiram, sobretudo na Europa, no período pós-primeira guerra mundial.

“O fascismo em essência é aquele da Europa dos anos 20 e dos anos 30, principalmente na Itália. Segundo Robert Paxton, no livro a Anatomia do Fascismo, o fascismo é de difícil compreensão, é difícil colocá-lo no lugar, conceituá-lo, mas existem algumas características que são importantes para o movimento”, explica.

“O fascismo é nacionalista, sem forma definida e, sobretudo, anticomunista. (…) Ele tem também uma característica comportamental, nasce como um movimento político, depois faz parte de uma raiz política dentro do poder, toma o poder, se instala e depois, radicaliza. Esse é o processo passo a passo de um regime fascista”, completa.

CONDIÇÕES FAVORÁVEIS AO FASCISMO

Para alcançar o patamar definido pelo professor, os movimentos precisam ganhar a simpatia e certo apoio de camadas da população. É comum que se aproveitem de momentos de fragilidade e enfraquecimento das instituições para se apresentar enquanto a única solução viável à resolução dos problemas da sociedade.

Fábio usa o exemplo da Itália e da Alemanha para questionar Jairo a respeito das condições favoráveis à instalação do regime. “A Itália estava destruída depois da primeira guerra; a Alemanha, com o Tratado de Versalhes, que declara o país como derrotado e como responsável pela guerra, passa a ter muitos embargos determinados pelas nações vencedoras”, apontou.

De acordo com Jairo, a criação de um ambiente de vitimismo e de medo, pela falta de pertencimento das pessoas, é uma das estratégias utilizadas pelos movimentos para chegar ao poder. Com as condições perfeitamente montadas pela crise eminente, se colocam na posição de salvadores.

“O fascismo usa então o seguinte discurso ‘nem uma coisa, nem outra resolveu, nós somos a terceira via, somos as pessoas que vão resolver os problemas, os problemas observados na Itália e na Alemanha'”, exemplificou.

Como toda narrativa apelativa necessita de um “salvador”, os regimes são centrados a partir da figura de um líder ditador. Para o regime, ele tem a função de representar a população e guiar o país para fora do caos e do perigo que se encontram, como foi o caso de Benito Mussolini, na Itália, e Adolf Hitler, na Alemanha.

“É justamente esse sentimento de fascínio pelo discurso, da necessidade de encontrar alguém que possa representar a sociedade fragilizada que surgiram a partir do ambiente de crise de 2008 algumas frentes neofascistas e neoconservadoras. Eles trazem o discurso de ser uma terceira via, de resolver os problemas”, disse Jairo.

CONFIGURAÇÕES DO FASCISMO NO BRASIL DE HOJE

A partir da relação contemporânea estabelecida pelo professor de história, Fábio trouxe o problema para mais perto. Quais são as questões observadas no Brasil dos dias atuais, com o governo de Jair Bolsonaro, que nos fazem perceber uma aproximação ao fascismo?

Ele mesmo aponta alguns elementos, levantados também na discussão, que podem estar sendo repetidos no Brasil. A crise econômica, iniciada em 2008, como um fenômeno global; a aparição e ascensão de Bolsonaro, que, assim como Hitler, não possuía histórico de forte atuação política, mas passa a ser levado ao posto de “salvador”; na militarização defendida como política.

Além disso, outras estratégias de viabilização e manutenção do poder, como o uso de propaganda, geralmente pautadas em notícias falsas, são vistas como semelhanças entre o governo Bolsonaro e regimes fascistas, como o de Hitler, com o nazismo.

Jairo acrescenta a esta última, outra característica que pode ser observada, como a busca de culpados para os problemas, que devem ser perseguidos. “A busca de um outro conveniente, que eu chamo da criação de um grande delírio. No Nazismo foram os judeus, negros, homossexuais e deficientes; hoje são os povos originários, os negros, homossexuais, e ainda os comunistas”, disse.

O diálogo com a propaganda nazista é vista na propagação do discurso de ódio contra esses grupos. Para Fábio, os ideais defendidos pelo presidente influenciam outras pessoas a serem também propagadores.

“Esses comentários feitos pelo presidente e membros do governo podem levar uma pessoa a cometer atos graves de violência, como muitos que a gente vê. A partir de tudo que a gente vê, são atitudes fascistas, que tem um pensamento divergente das diferenças, não admiti-las, transformando em desigualdade”, disse.

A representação da exclusão dessas minorias pode ser observada no recém-divulgado vídeo da reunião ministerial do governo, em muitos momentos, mas, sobretudo, na fotografia utilizada pelo governo como capa de um projeto para o Brasil.

“Quatro ou cinco crianças de características nórdicas, brancas europeias, são mostradas na foto. Sem crianças negras e indígenas, sem a representação do que é de fato a sociedade brasileira enquanto uma sociedade ampla, complexa e plural; o pensamento de supremacia racial se repete aqui”, explica Fábio.

As políticas de incentivo que levaram esses grupos a um patamar que antes não os era destinado, a ter garantias e ocupar espaços que não ocupavam, incomodou uma classe privilegiada do Brasil. Isso, segundo Fábio, pode ser percebido na adesão que o presidente teve nas classes mais altas e na reprodução desses discursos.

Diante do que Jairo define como novas aparições do fascismo, ele defende a importância dos pesquisadores e da História para relembrar os acontecimentos e analisar o que acontece hoje.

“Existem sim semelhanças, o que a gente deve fazer nesse momento é estranhar, criticar. A gente precisa dar nome a esse novo fascismo ou a essa nova forma de configuração fascista. É preciso nomear porque o fascismo clássico é de outro tempo, e hoje temos outras configurações, novas aparições. É mais do que na hora de nomear no Brasil”, finalizou.

Fábio, por fim, fala sobre a necessidade de defender a democracia. “Não podemos permitir, sob hipótese nenhuma, de forma democrática e humanista, que o fascismo se instale em nenhum lugar no mundo porque ele só trouxe prejuízos. Ele é uma página muito ruim, mas que pelo menos nos serve como memória para que a gente repense os nossos passos”, concluiu.