Desigualdade social no Brasil dificulta implementação de medidas na educação pública durante a pandemia

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As educação foi uma das primeiras atividades afetadas pelo coronavírus. Desde março, quando a pandemia começou a tomar maiores proporções no Brasil, as instituições de ensino do país tiveram que suspender o funcionamento presencial para evitar a transmissão da doença. Dois meses depois, a saída encontrada pelas grandes redes privadas está relacionada a implementação de atividades remotas, a rede pública, principalmente a municipal, no entanto, ainda busca saídas para oferecer ensino de qualidade a todos os alunos.

Na cidade de Paulista/PE, por exemplo, a Secretaria de Educação tem divulgado exercícios online, que compreendem as disciplinas de português e matemática, para atender os mais de 19 mil alunos da rede municipal. O formato audiovisual também é explorado a partir de vídeos elaborados e gravados pelos próprios professores e, publicados de maneira esporádica em um canal do Youtube. Nos últimos dias, a gestão também divulgou a entrega de apostilas impressas de exercícios. As atividades não apresentam um plano claro de acompanhamento pedagógico.

As medidas propostas pelo município seguem a linha dos planos seguidos por outros municípios do Brasil, que enfrentam o desafio de continuar oferecendo educação de qualidade aos estudantes e tentam aproveitar estratégias digitais e online já consolidadas em outras situações. No entanto, é importante observar as limitações dos projetos e as dificuldades encontradas ao tentar atingir uma massa plural de quase 20 mil alunos a partir de uma referência única de educação. A desigualdade social não é mais um problema, mas o grande obstáculo para a adesão a modelos remotos de aprendizagem.

Pesquisa feita Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), entre agosto e dezembro de 2018 e divulgada em 2019, aponta que 58% dos domicílios no Brasil não têm acesso a computadores e 33% não dispõem de internet. Mas não é só a defasagem tecnológica que que prejudica o aprendizado dos estudantes fora das escolas. Muitas casas de famílias em vulnerabilidade não oferecem a infraestrutura necessária para o foco necessário ao desenvolvimento cognitivo das crianças, lugares pequenos e com mais de um núcleo familiar.

“Estamos lidando com uma realidade muito diversa e complexa. É o momento de apontar as dificuldades para que possamos juntos, enquanto sociedade, traçarmos soluções possíveis para que todas as crianças, não só aquelas de classe média que têm um ensino privado, consigam continuar aprendendo de alguma forma. O ensino remoto, dentro da realidade que nós temos não pode ser a regra para todos, é um norte que as gestões têm tomado, mas é preciso ter o olhar apurado e um acompanhamento mais próximo para aqueles alunos que já têm problemas de aprendizado, que estão em vulnerabilidade e que podem acabar abandonando o ensino”, refletiu o presidente da Câmara dos Vereadores de Paulista/PE, Fábio Barros.

A falta do espaço físico e da infraestrutura oferecida pela escola também aparece como um grande obstáculo não só no que se refere aos equipamentos, mas também da metodologia pedagógica empregada. A relação dos alunos com professores fica cada vez mais distante, já que as soluções oferecidas não se mostram de fato interativas, como um canal de duas mãos entre quem ensina e quem aprende. Com níveis de aprendizado diferentes entre os alunos, aqueles que têm desempenho acadêmico melhor tendem a se beneficiar mais das soluções tecnológicas ou remotas de forma mais autônoma.

Os pais ou responsáveis, que podem estar junto aos alunos e acompanhar as atividades, muitas vezes não se sentem preparados para ajudar. A realidade de ensino dos dias atuais já mostra uma geração mais escolarizada do que a anterior, o que explica a dificuldade relatada pelos familiares. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua de 2018, 52,6% da população com 25 anos ou mais do Brasil possuíam no máximo o ensino fundamental completo, ou seja, mais da metade dessa população não havia completado a educação escolar básica e obrigatória neste ano.